Irradiações — Sombras Dançam no Espaço Tempo
Desenho da série “Da Dança”, 2026. Carvão sobre papel, 70 × 100 cm.
Penso na Serra da Capivara, em Altamira, Chauvet e Lascaux. Penso que as paredes internas da caixa craniana têm um tanto de caverna. E que a luz viaja pelo vazio em raios invisíveis. E que se essa luz puder alcançar uma parede recôndita e morta, o invisível projetará o mundo.
Penso em todos os desenhos que se desmancharam no tempo, em erodidas Capivaras e Altamiras. E imagino que, sob certa luz, suas sombras ainda dançam.
I. Caverna
Gosto de imaginar que habito uma caverna. E que saio dela com uma frequência maior do que me seria confortável. Saio para intercambiar coisas no mundo e regressar ligeiro.
De dentro dela, vejo a sua abertura e, logo ali, o céu noturno e estrelado. Na direção oposta, vejo o breu sendo preenchido de mistérios à medida em que as paredes aprofundam.
Saio para coletar coisas no mundo, mas não imagens. As imagens as encontro todas bem ali no breu.
Toda caverna tem dois céus.
II. Cavar
A criança cava para brincar com suas tocas, esconderijos, poços e cavernas em miniatura. Cava, também, a procura de vestígios de outros tempos. Quero ser arqueólogo, pensava. Não o fui, mas desenhando pude e posso escavar a superfície branca do papel sempre que necessário, também à procura de vestígios.
Niède Guidon cavou.
Retornam à superfície vestígios de óxido de ferro e carvão, da fundura de mais de 24 mil anos.
Minha criança arqueóloga descobriu, na Capivara, que é possível escavar além de terra, território. E fazer alterar toda uma noção de tempo de ocupação desse(s) chão(s) que hoje chamamos Brasil.
Cavar o tempo.
III. Carvão
Matéria e madeira têm a mesma raiz etimológica, como nos lembra Vilém Flusser. Na raiz: mater.
Procuro no desenho seu caráter mais direto. Escapar de tudo que possa aparecer no caminho entre a vontade e a expressão, incluindo esquemas e outras mediações.
Desenho como linguagem porosa.
E o que desenhariam agora os carvões das fogueiras escavadas no Piauí?
IV. Corpo
Tento imaginar por quantas formas e estados já passou a matéria que me forma.
O corpo como história da matéria e a dança como um registro: sou corpo e, portanto, sou a história do universo e, nesse instante e nesse estado, posso e danço.
Registro também é o nome dado ao vestígio da linha desenhada após ser parcialmente apagada no papel.
Como os registros deixados pela existência dos nossos corpos estarão ainda irradiando pelo espaço-tempo daqui a milhares de anos?
V. Cosmos
Os milênios que nos separam das pinturas rupestres de corpos e danças em Xique-Xique, Peruaçú, Confusões, coincidem com os milênios percorridos pela luz de muitos dos astros que vejo na noite, desde a entrada da caverna.
Do lugar onde estou no cosmos, sinto que “o tempo se distancia em círculos concêntricos — inerte no centro, lentamente ganhando velocidade à proporção que aumenta o diâmetro”, aproveitando o que escreveu Alan Lightman.
As pinturas radiais não param de se repetir para mim.
VI. Cronos e Kairós
Todo tempo quanto houver pra mim é pouco pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco. Todo tempo quanto houver pra mim é pouco pra dançar com meu benzinho. Todo tempo quanto houver pra mim é pouco pra dançar. Todo tempo quanto houver pra mim é pouco. Todo tempo quanto houver pra mim. Todo tempo quanto houver.
Assim como a sala de reboco de Gonzaga, o espaço vazio deixado pelos grandes mistérios também foi feito todinho para a gente dançar.
— Gabriel Duran, 2026