Laura Belém — Apresentação da exposição "Como Dançam as Sombras"

Desenho da série “Da Dança”, 2024. Carvão sobre papel, 70 × 100 cm.

Penso em todos os desenhos que se desmancharam no tempo, em erodidas Capivaras e Altamiras. E imagino que, sob certa luz, suas sombras ainda dançam. (Gabriel Duran)


             Qual a relação entre uma mão que escava e um corpo que dança? E entre o tempo e um desenho? Ao contrário de buscarem respostas imeditatas, essas perguntas pretendem ecoar como um ato de demora ou suspensão. Ficar com a demora pode se referir a encontrar meios de significação que driblam as urgências do mundo. E tal demora tão pouco é uma espera ansiosa, mas sim um mergulho processual em si e no desconhecido, permitindo o atravessamento de temporalidades e materialidades para a lapidação da forma, mesmo que esta venha a se desmanchar.

            Desde 2016, Gabriel Duran vem se dedicando à pesquisa do desenho e, mais recentemente, a experimentações que se desbobram em outras linguagens, tais como a pintura, a escultura e a fotografia. O conjunto de trabalhos aqui reunido é fruto dessa dedicação consistente à prática artística ao longo de anos, e nos revela uma escuta sensível de corporeidades distintas para se pensar o tempo, a matéria, o rastro, o vestígio, e suas imbricações com a existência humana.

            Restos de madeira carbonizada, encontrados durante uma residência artística na Fazenda Serrinha (SP), em 2017, são indícios de um incêndio florestal, e podem tanto denotar um acidente quanto uma ação humana intencional que olha para a natureza como um recurso. Contudo, para o artista que se depara com essa cena onde algo ao entorno já foi destruído, transformado, pedaços de carvão vegetal tornam-se motivação para o início de uma poética por meio do desenho. Trata-se de um desenho que não nega a sua origem; de antemão ele toma como premissa a temporalidade e o fato de que tudo o que hoje tem uma forma, irá um dia se desintegrar. Seria pensar o desenho como "linguagem porosa." A floresta queimada, ou o carvão dela resgatado, desperta o desejo de ressignificação do entorno, da paisagem, e do próprio corpo humano. Os primeiros desenhos apontam para a materialização de uma fantasmagoria, revelando uma série de rostos que flertam com a figuração e a abstração. São rostos que nascem das sobras, das sombras e das nuances da matéria vegetal carbonizada. Há ali um embrião, o ensejo para a construção de um novo corpo e uma nova poética que, um pouco mais adiante, seria inspirada não apenas pela matéria dilacerada e memória do carvão, mas também pelo corpo fragmentado — quase em ruínas —  da dança e do sujeito contemporâneo.

            Podemos pensar em confluências. O bastão de carvão está prestes a se transformar em cinzas. Das cinzas surgem todos os corpos, segundo a Gêneses, e em cinzas todos os corpos também se transformam. O processo é pleno de movimento cíclico, desde os primeiros gestos que riscam o papel. Não há um começo, meio e fim, e sim um continuum, onde as pontas se ligam por transições suaves. Nesse ínterim, há também o momentum, que aponta mais para a energia do movimento do que para o movimento em si. Pensar o corpo do desenho e da pintura pode significar também pensar a gestualidade do próprio corpo e de corpos moventes de outras pessoas. O papel e a tela tornam-se espelhos de si e do mundo, não tanto para a figuração da realidade mas para a invenção de um vir a ser que conjuga futuro, presente e passado. Em determinado ponto da trajetória de Gabriel, o diálogo com a dança contemporânea passa a assumir uma importância central. Uma presença-ausência, já que mais uma vez o que interessa é fisgar o rastro deixado por um corpo ou por um conjunto de corpos — seu movimento ora fragmentado, ora energético; ora explosivo, ora estelar; tomado como matéria-vestígio e percebido como campo de contração e de expansão.

            No corpo-território, há um tempo cósmico e um tempo arqueológico. Anos mais tarde, já não importa quando, essa mesma dança registrada como rastro, como retrato expandido que se desprende dos esquemas, encontra outro ponto de confluência e de interrogação nas pinturas rupestres da Serra da Capivara (Piauí), com as quais o artista tem contato em outra residência artística. A porosidade do carvão, inicialmente elegido por Gabriel como matéria plástica, sua vida advinda da combustão e do apagamento, tangencia a memória mineral dos traços inscritos nas rochas, seu gesto ancestral e residual, e sua insistência em sobreviver ao tempo.

            Ficar com a demora é ficar com a reflexão. A demora pode ser a de tentar alcançar a origem de uma pintura rupestre, ou de tocar uma estrela que está a anos-luz. Aqui, ou desde o começo, já não cabe pensar o tempo cronológico. Cabe, sim, pensá-lo como invenção radial, circular e por que não explosiva — um terreno para a projeção de fabulações sobre nossos corpos, sobre a existência humana e a cosmologia do universo. A que se destina? São as sombras, as estrelas, os corpos e os gestos que dançam? Ou quem dança é o fio invisível do tempo?

 — Laura Belém, 2026.

 

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Irradiações — Sombras Dançam no Espaço Tempo